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03/06/2014 às 23h47

Beyoncé é a capa da 'T Magazine'; leia a matéria traduzida

''A mulher no topo do mundo'' é o título do artigo da revista.
Texto mostra como tudo mudou na carreira da diva.

Beyoncé é a capa da nova edição da revista 'T Magazine', do grupo 'The New York Times', divulgada nesta terça-feira (3).

O artigo, escrito pelo jornalista Jody Rosen, mostra que algo mudou e a cantora já não é apenas outra pop star qualquer. As fotos são de Juergen Teller, os figurinos elaborados por Poppy Kain e make-up por Francesca Tolot.

Confira o texto na íntegra, em português, abaixo.


Se você já viu Beyoncé Knowles em um palco ou nos tapetes vermelhos, você sabe que ela é uma mulher com entradas triunfais. Mas nenhum truque teatral preparou o mundo para a chegada do quinto álbum solo da cantora, "BEYONCÉ", o álbum visual que apareceu no iTunes à meia-noite de 13 de dezembro de 2013. Durante meses a imprensa ferveu com especulações sobre o lançamento atrasado do novo disco de Beyoncé, com rumores de sessões de estúdio desastrosas e dezenas de músicas descartadas. "Há uma desordem total na equipe de Beyoncé", disse o site MediaTakeOut. Houve uma inédita sucessão de eventos para Beyoncé, cuja carreira tem sido uma prova de, se assim podemos dizer, matrizes: uma real, ordenada de hit a hit, marco a marco, força a força.

Com certeza, o mencionado caos nos bastidores acabou sendo a habitual organização de bastidores, mas disfarçado: enquanto os moinhos de fofocas zumbiam, Beyoncé gravou, sorrateiramente, 14 músicas e filmou 17 vídeos, os quais ela revelou naquele ataque surpresa de dezembro. Puramente como uma façanha de gestão de informações, "BEYONCÉ" foi impressionante. A Agência de Segurança Nacial (NSA) não conseguiu evitar que seus segredos fossem revelados; mas Beyoncé manteve uma cobertura no projeto que envolveu centenas de pessoas - músicos de estúdio, cinegrafistas, técnicos, assistentes pessoais, até os executivos de gravadoras, como de regra as pessoas menos confiáveis do planeta. A chegada de toda aquela música, de uma vez e de repente, foi um chocante movimento sem precedentes, que abalou a indústria fonográfica e convulsionou a Internet. Um único vídeo da Beyoncé é capaz de escalonar os sentidos; o lançamento simultâneo de 17 deles - um ataque de som e espetáculo e figurinos e coreografia e, no caso de um vídeo como o de "Rocket", imponentes imagens em câmera lenta de lençóis de seda ondulando e gotas de água caindo sobre a barriga nua de Beyoncé - era muito pra processar. Podemos apenas imaginar os sentimentos das concorrentes de Beyoncé, que cuidadosamente planejaram seus lançamentos por meses e foram imediatamente dispensadas. Os zumbidos de lamentação que você ouviu em 13 de dezembro, misturado ao som de "Drunk in Love" - aquilo foi Lady Gaga, na sombria torre de seu castelo, serrando um vestido de carne e colocando em sacos.

Beyoncé tem 32 anos de idade. Ela tinha 9, quando começou a cantar no Girls Tyme, o grupo que ela formou com as amigas em sua cidade natal, Houston; quando o sucessor do Girls Tyme, Destiny's Child, chegou pela primeira vez ao Top 5 da Billboard Hot 100, em 1998, Beyoncé tinha apenas 16 anos. Ela nunca pareceu ingenua: até mesmo enquanto adolescente, ela tinha uma seriedade. Em uma de suas canções do novo álbum, Beyoncé olha para trás: "Look at me - I'm a big girls now... I'm a grown woman." Mas o clichê "inocente para a experiente" não se enquadra na vida de Beyoncé, ou arte. Desde o começo sua mensagem sempre foi profissionalismo, perfeccionismo, poder - ideais exemplificados em suas incríveis apresentações e dramatizados em canções enxergam o romance através das lentes do dinheiro. Sucessos como "Bills, Bills, Bills" (1999), "Upgrade U" (2006) e "Single Ladies (Put a Ring on It)" (2008) colocaram Beyoncé, figurativamente, debruçada sobre um balanço, pesando os custos de afetos dispensados e artigos de luxo acumulados. Nos últimos anos, Beyoncé atenuou um pouco o materialismo, mas a ambição continua sendo seu cartão de visita. Em seu ardente single de 2011, "Run The World (Girls)", ela canta: "We’re smart enough to make these millions/Strong enough to bear the children/Then get back to business." A canção é um hino pró-feminismo, sem dúvidas. Ela é também um plano de negócios que ela seguiu à risca.

Em 2014, o aperto de Beyoncé no espírito do tempo tornou-se um estrangulamento. Uma recente esquete do programa "Saturday Night Live" girava em torno da mordaça de que a adoração por Beyoncé tornou-se obrigatória nos Estados Unidos, aqueles que a negarem serão rastreados e eliminados por capangas do governo, a Beygency ("Ele virou-se contra seu país... e sua rainha", dizia a narração). Assim como sugere o "SNL", Beyoncé tournou-se algo mais do que apenas uma superstar. Ela é uma espécie de figura nacional, a Entertainer Chefe, ela pertence à história do país. Algum dia, com certeza, seu collant de "Single Ladies" terá um lugar ao lado de Mickey Mouse, do Ford Model T e do trompete de Louis Armstrong em uma vitrine da Smithsonian (instituição do governo).

Historicamente falando, isso não é uma conquista pequena. As mulheres negras sempre foram figuras dominantes na música popular americana, mas ninguém, nem mesmo Aretha Franklin, alcançou o patamar que Beyoncé ocupa: a popstar colosso, a adorada "sex symbol", "queridinha da América". Inevitavelmente, Beyoncé também é um ponto de inflamação, provocando a ira de opositores e ideólogos de todos os tipos. Em março, Bill O'Reilly criticou "Partition", uma canção que detalha o encontro de Beyoncé e Jay-Z em uma limusine, como sendo um mal exemplo para as "meninas de cor". (Sexo após o casamento, consensual, entre adultos: imoral.)No mês passado, a feminista negra autora e ativista, Bell Hooks, disse para a plateia em um simpósio na New School: "Eu vejo uma parte de Beyoncé que é, de fato, antifeminista, que é agressiva - isso é terrorista... especialmente em termos de impacto sobre as meninas." Há uma crescente literatura acadêmica sobre Beyoncé; o departamento de Estudos de Gênero e das Mulheres da Universidade Rutgers tem oferecido um curso de graduação chamado "Politizando Beyoncé". Beyoncé é, como um professor de estudos culturais pode dizer, o mais rico multivalente "texto" da cultura popular. A pergunta hoje em dia não é "Como deve ser o novo disco da Beyoncé?", mas sim "O que Beyoncé quer dizer?".

Certamente, o significado começa com o som - com o tom e timbre na voz de Beyoncé, um dos instrumentos mais constrangedores na música popular. Beyoncé tem habilidades tradicionalistas. Ela consegue cantar uma balada contemporânea como Barbra Streinsand; ela pode nos dar um testemunho evengelho poderoso; ela pode canalizar Michael Jackson ("Love on Top") ou imitar o falsete do Prince ("No Angel"). Mas ela é, invegavelmente, um produto da era hip-hop, uma cantora que assimilou a agressão e ritmos escorregadios de rap em um estilo vocal virtuoso e diferente. Nós estamos tão acostumados a Beyoncé, que pode ser difícil de entender quão excêntrica ela é, o quão diferente sua abordagem ao ritmo, melodia e harmonia são para as gerações passadas. Você pode ouvir essa excentricidade nas mudanças selvagens de timbre e deslizes síncopes de "Drunk in Love", um hit metade cantado e metade com rap que soa, no melhor sentido, como uma canção que Beyoncé está improvisando a partir do zero, em tempo real. Como todos os inovadores, Beyoncé tem empurrado as fronteiras, ampliando o nosso sentido de como a música deve soar. Na medida em que nós ouvimos Beyoncé como "pop", é porque ela nos ensinou assim.

Ela também ensinou o mundo a ver a música de maneira diferente. Os 17 vídeos de seu último álbum capturam a estrela numa variedade de atitudes e alter-egos; como uma participante de um concurso de beleza; como uma rainha dos patins; como uma líder de protestantes com o cabelo verde; como uma garota de Houston; como uma stripper, uma apaixonada, uma esposa; e em ''Blue'', uma mãe desfilando pelo sol da costa brasileira com sua filha, Blue Ivy. 

Mais de três anos após o surgimento da MTV, ainda existem aqueles que veem os vídeo clipes como degradados ou "inautênticos". Mas a música de Beyoncé é inseparável de seu magnetismo de estrela de cinema: a menira como ela olha para a câmera, faz uma pose, veste suas roupas e, especialmente, a maneira como dança. E por que não? A música popular sempre foi um meio audiovisual. Se Beyoncé é a figura dominante na música do século 21, talvez seja porque o pop tem circunavegado de volta para suas raízes vaudevillian do século 19 até um tempo anterior onde vozes sem corpo chegavam até nós através de auto-falantes hi-fi ou fones de ouvidos com cancelamento de ruídos, quando a música era, exclusivamente, uma arte de performance. Beyoncé é a maior cantora e dançarina antiquada, a show-woman suprema, em uma era onde, mais uma vez, aprendemos a amar um show músical incompleto.

Claro, ela é mais do que isso. Literal e figurativamente, Beyoncé é um alvo em movimento – é tão difícil de corrigi-la quanto acompanhá-la na pista de dança. Beyoncé representa uma mulher com os pés no chão e de glamour inalcançável, uma mulher de alma e uma diva, uma trabalhadora ética que possui 1% de excesso. Seu novo álbum envolve o sexo a ponto de atingir o delírio, com frases de impacto sobre corpos desgastados no final da noite e insinuações de sexo violento. No entanto, o sexo – na limusine, na cozinha, em qualquer lugar, aparentemente, menos no quarto – é um sexo casual, com valores familiares, que deixa claro no álbum que deu luz à uma menininha, um resultado que faça com que até Bill O’Reilly se sinta bem vendo.

As músicas de Beyoncé são recheadas de algumas contradições. Pense em "Single Ladies", um hino da solidariedade feminista que envolve o romance transacional: "If you liked it, then you should have put a ring on it." Ou considere "***Flawless", no novo álbum, que mixa sons e significados. Há uma batida clamorosa e vocais misturados; há menções a Houston ("H-town vicious") e para a gravadora de Jay-Z, Roc Nation ("My Roc, flawless"). Há ameaças de uma garota malvada ("Bow down, bitches!") e um trecho do discurso do TEDx da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie intitulado "We Should All Be Feminists", que aponta o dedo para as ameaças das meninas: "Nós criamos as garotas para vê-las competindo uma com a outra". O vídeo mescla um fragmento da aparição de Beyoncé aos 10 anos de idade no show de talentos "Star Search" com a Beyoncé de hoje em dia, vestindo uma camisa que lembra Kurt Cobain, executando uma espetacular coreografia em um porão cercada de skinheads. Tudo se reúne no refrão – "I woke up like this!" – que, entre outras coisas, cumpre ambos os deveres de ostentar sobre a beleza e se tornar um mantra sobre o sucesso. O que Beyoncé quer dizer? O que ela não quer dizer.

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